A noite chegou rápido demais. A Montanha Fóssil parecia suspensa no tempo, como se a própria natureza a tivesse esquecido. Json, Lyra e Orren acenderam uma pequena chama ao centro, mas sabiam que não era o frio que os ameaçava.
Orren vasculhava os rastros deixados no caminho. “Aquilo que veio da floresta não é mais humano. Não no que compreendemos como humanidade.” Json apenas assentiu. Sentia que o pensamento daquela entidade era um ruído constante ao longe, como metal rangendo dentro de sua cabeça.
“E se estivermos sendo reunidos por esse Pensamento? E não contra ele?” questionou Lyra, olhando para as estrelas. “E se tudo isso for apenas uma provocação... antes do despertar?”
O silêncio respondeu por alguns minutos. Até que, do nada, uma das pedras sagradas da montanha explodiu em partículas. Um símbolo desconhecido se revelou no solo, brilhando em roxo.
Json se aproximou e, sem pensar, estendeu a mão. O símbolo se fundiu à sua pele — uma marca como fogo frio. Sentiu-se mais leve. Como se toda a massa do mundo não lhe pertencesse mais.
“Essa é... a linguagem do Vácuo”, sussurrou Orren. “Isso só aparece quando alguém... morre pensando além do permitido.”
“Quer dizer que alguém já caiu?” — Lyra arregalou os olhos.
Json respondeu com voz firme: “Não caiu. Foi empurrado.”
A partir dali, começaram os treinos. Cada um buscava compreender suas naturezas. Json treinava o controle da inércia, tentando parar folhas no ar ou atravessar distâncias com mínima variação de energia.
Lyra desenhava fórmulas que surgiam como relâmpagos quando sussurradas, seu poder parecia derivar de relação simbólica e lógica — como se cada símbolo evocasse um estado do universo.
Orren parecia menos interessado em poder, e mais em observar — mas já podia fazer crescer raízes em segundos, ou apagar pegadas com um toque.
Naquela madrugada, Json ouviu a voz.
Não era uma voz comum, nem um sussurro real. Era uma ideia que aparecia diretamente em sua mente, como um eco interior. Ela dizia:
“Você é o primeiro. Mas não será o único.”
Ele acordou ofegante. No céu, nuvens se abriam revelando um feixe dourado. Algo — alguém — estava vindo. E com ele, viria o primeiro grito real do mundo.