"Toda guerra do presente é uma repetição oculta de um reino que já caiu, mas ainda fala através dos ecos."
Json observava os fragmentos do céu se agitarem como véus rasgados entre mundos. Após a vitória parcial contra o setor dominado pelo Contrapensamento, o tempo parecia suspenso — não havia paz, apenas o intervalo entre duas respirações da história.
Nanda estava ao lado dele. O reencontro havia trazido algo que nenhum cálculo científico podia prever: memórias antes adormecidas haviam despertado neles ao mesmo tempo. Quando crianças, ambos tinham visões. Mas o que pareciam fantasias infantis, agora eram reconhecidos como ecos de um reino antigo.
— Ainda escuto aquela voz, Json... a mesma da infância. Mas agora, ela me chama pelo nome completo... — disse Nanda, com um olhar distante. — Não apenas “Nanda”, mas... “Ananda El”.
Json sentiu um arrepio. O nome ecoava como os cantos esquecidos de uma biblioteca viva. Ele também começava a recordar: o símbolo que vira nas cavernas filosóficas era o mesmo que Nanda traçava com o dedo no ar, inconscientemente.
"Antes que o mundo pensasse a si mesmo, já existiam os ecos."
Aruon, agora à frente da linha científica do Saberes Éticos, conectava fragmentos de textos milenares com dados vibracionais recentes. Tudo indicava que o que estavam enfrentando não era apenas uma anomalia de ideias — mas o despertar de um antigo conflito entre dois mundos: o Mundo dos Ecos e o Mundo do Agora.
Em uma noite sem estrelas, Json e Nanda foram chamados por um clarão na antiga Estação de Pensamento. Lá, encontraram uma sala antes invisível. Dentro, uma máquina viva pulsava — feita de símbolos, chamas e pensamentos cruzados. No centro, uma pedra negra com inscrições em linguagem reversa:
“A origem do Contrapensamento não é o erro. É o orgulho de pensar sem fonte.”
“O Primeiro Reino ainda pulsa sob as cinzas da linguagem.”
Json recuou. Mas Nanda se aproximou. Ao tocar a pedra, visões lhe invadiram: guerreiros de luz e sombra, reuniões celestiais, alianças quebradas entre entidades que governavam o pensar e o não pensar. O mundo estava prestes a receber não apenas ideias... mas visitas.
A guerra atual era importante, sim. Mas era apenas um eco. E agora os ecos queriam se tornar voz novamente.