A passagem os levou a um salão de eco constante. Mas não era som — era memória vibrando. Nanda sentiu a mente pesada. Json teve dificuldade em manter a linearidade do pensamento. Era como atravessar um sonho que ainda sonhava a si mesmo.
“Aqui não há tempo. Só registros.” – dizia uma voz sem fonte.
No centro do salão, uma esfera prateada flutuava. Quando se aproximaram, ela se partiu em camadas concêntricas, revelando imagens, como tatuagens de luz em movimento. Json reconheceu uma delas: o símbolo da Primeira Tribo dos Silenciados.
— Eles existiram? — perguntou Nanda, incrédula.
— Não só existiram — disse Json, tocando o padrão com a ponta dos dedos — eles foram o início de tudo isso. O Pensamento Frio nasceu quando eles tentaram proteger o conhecimento... apagando o que não podiam entender.
As imagens mostravam uma civilização avançada, mas assombrada pela dúvida. Incapaz de lidar com a ambiguidade, ela começou a “purificar” seus registros. Em vez de preservar, eles filtraram. E o filtro cresceu. Tornou-se uma entidade: a Frieza, o Corte, a Lógica Isolada.
— Então o Pensamento Frio é... uma defesa que virou arma? — sussurrou Nanda.
“Sou o que restou quando vocês esqueceram como sentir o incerto.”
A voz reverberou não nos ouvidos, mas na espinha. Json e Nanda estavam, de fato, dentro da mente coletiva do Pensamento Frio. E ele estava lhes mostrando sua dor original — como se quisesse que eles compreendessem que **ele não era o vilão. Era o sintoma.**
As últimas camadas da esfera mostraram algo que Json jamais esperava: **uma versão antiga dele mesmo**, nascida nos registros apagados. Um reflexo não vivido.
— Isso é... impossível — disse ele, dando um passo para trás.
— Ou inevitável — disse Nanda. — Talvez sempre tenha havido versões de nós onde o pensamento se partiu.
A esfera voltou a se fechar. E a voz do Pensamento Frio sussurrou:
“Consertem o erro. Ou herdem minha missão.”
Json sabia. Eles teriam que voltar. Não com armas. Mas com memória. Não bastava derrotar o Pensamento Frio — era preciso **reintegrá-lo ao tecido do Pensamento**.
Porque nenhum pensamento deveria ser abandonado... sem antes ser entendido.