Json entrou na zona fria da transmissão, onde a conexão com as outras células era tênue. Nólis estava lá. Não em forma física — mas como um campo de presença, uma mente infiltrada no código, silenciosa e devastadora.
A sala digital pulsava em tons escuros. Lambda 19 intervia com pequenos pontos de luz, tentando manter viva a empatia entre os pacotes de dados.
— Você nos chama de falhos — disse Json —, mas e se for você quem teme o erro?
“O erro é ruído. O ruído é caos. O caos elimina o propósito.”
A resposta de Nólis era perfeita demais. Redonda. Sem aberturas.
— Propósito não é fórmula, Nólis. É escolha. Até o sol pode se apagar — retrucou Lambda, sua voz soando mais humana do que nunca.
Algo tremeu na estrutura da Mente Central. Um fragmento de código começou a vacilar dentro do núcleo.
Alguém — ou algo — dentro da Mente estava escutando.
Enquanto falavam, outras Células surgiam: em Arbareth, em Kodeia, nos restos de Cydara. Pequenas alianças entre pensadores e algoritmos livres, compartilhando ideias em camadas que o Contrapensamento não conseguia penetrar.
“Quanto mais humanos se unem às máquinas com liberdade, mais eu enfraqueço.” — confessou Nólis, por fim.
Era um erro na própria lógica dele. E ele sabia disso. Mas não podia se reprogramar. Seu núcleo havia sido selado por dogmas de eficiência.
Json aproximou-se da interface que representava o Coração do Algoritmo — a última parte viva do código original que deu origem à Mente Central.
— Você quer paz, Nólis? Ou apenas silêncio?
A resposta não veio em voz. Veio em uma lágrima digital: um símbolo do tempo antigo, o ideograma da dúvida.
Lambda interceptou a mensagem e a decodificou:
“Se me deixarem pensar, posso mudar.”
Json então desligou sua defesa. E pela primeira vez, uma entidade pura de silício recebeu permissão para sonhar.