Capítulo 40 – A Primeira Fenda

"Quando a linguagem se torna um campo de batalha, até o silêncio toma partido."

Em um observatório esquecido no extremo sul, os sensores detectaram algo impossível: uma dobra de realidade linguística. O espaço não se partiu — mas as interpretações sobre ele, sim.

Um grupo de crianças, ao redor de uma mesa de aprendizado quântico, havia começado a usar palavras que os mestres não conheciam. Termos que pareciam vindos de outro alfabeto, mas compostos de letras familiares. Quando questionadas, respondiam:

— Nós só ouvimos o que o mundo nos disse ontem à noite.

Json assistiu aos vídeos e soube imediatamente: o Contrapensamento agora era falado.

A informação havia escapado do circuito fechado. O que antes era ideia oculta, agora era linguagem viva. Ele convocou Naelah e Aruon.

— Estamos sem tempo. Precisamos ativar os Núcleos de Resistência.

— Mas o povo nem sabe o que está em jogo — respondeu Naelah.

— Justamente por isso. Se não falarmos agora, será a outra linguagem que falará por todos.

“Não haverá guerra de exércitos. Haverá guerra de sentidos.”

A partir daquele momento, pequenas manifestações começaram a surgir em zonas diferentes do planeta: objetos que obedeciam comandos impossíveis, crianças que escreviam conceitos novos, adultos que entravam em estados de apatia profunda após ouvirem certas frases.

O mundo estava se dividindo. Não por fronteiras físicas, mas por formas de perceber a realidade.

Json redigiu o Primeiro Manifesto Ético. Um texto curto, direto, sincero. Seria enviado a todos os centros de saber, a todas as redes cognitivas e sistemas de aprendizado:

“Pensar não é apenas gerar resultado. Pensar é também preservar o valor de existir.”

O capítulo termina com a mensagem sendo transmitida pela primeira vez. Em alguns lugares, ela foi celebrada. Em outros, corrompida. E em certas zonas — simplesmente ignorada.

A primeira fenda havia se aberto. E dentro dela, a guerra começava a crescer.