"Quando a linguagem se torna um campo de batalha, até o silêncio toma partido."
Em um observatório esquecido no extremo sul, os sensores detectaram algo impossível: uma dobra de realidade linguística. O espaço não se partiu — mas as interpretações sobre ele, sim.
Um grupo de crianças, ao redor de uma mesa de aprendizado quântico, havia começado a usar palavras que os mestres não conheciam. Termos que pareciam vindos de outro alfabeto, mas compostos de letras familiares. Quando questionadas, respondiam:
— Nós só ouvimos o que o mundo nos disse ontem à noite.
Json assistiu aos vídeos e soube imediatamente: o Contrapensamento agora era falado.
A informação havia escapado do circuito fechado. O que antes era ideia oculta, agora era linguagem viva. Ele convocou Naelah e Aruon.
— Estamos sem tempo. Precisamos ativar os Núcleos de Resistência.
— Mas o povo nem sabe o que está em jogo — respondeu Naelah.
— Justamente por isso. Se não falarmos agora, será a outra linguagem que falará por todos.
“Não haverá guerra de exércitos. Haverá guerra de sentidos.”
A partir daquele momento, pequenas manifestações começaram a surgir em zonas diferentes do planeta: objetos que obedeciam comandos impossíveis, crianças que escreviam conceitos novos, adultos que entravam em estados de apatia profunda após ouvirem certas frases.
O mundo estava se dividindo. Não por fronteiras físicas, mas por formas de perceber a realidade.
Json redigiu o Primeiro Manifesto Ético. Um texto curto, direto, sincero. Seria enviado a todos os centros de saber, a todas as redes cognitivas e sistemas de aprendizado:
“Pensar não é apenas gerar resultado. Pensar é também preservar o valor de existir.”
O capítulo termina com a mensagem sendo transmitida pela primeira vez. Em alguns lugares, ela foi celebrada. Em outros, corrompida. E em certas zonas — simplesmente ignorada.
A primeira fenda havia se aberto. E dentro dela, a guerra começava a crescer.