Capítulo 38 – A Linguagem de Ferro

"A linguagem molda o ser. Mas algumas moldagens não admitem retorno."

O Primeiro Corpo permaneceu imóvel por horas. Não respirava, mas havia ritmo. Não piscava, mas compreendia. Json o observava de todos os ângulos, tentando entender se aquela era uma entidade senciente ou apenas uma máscara para algo que ainda se escondia.

Naelah, em silêncio, trabalhava. Conectava terminais de leitura filosófica — interfaces que cruzavam lógica simbólica, afetividade e coerência. O objetivo era simples e perigoso: induzir o Contrapensamento a se comunicar numa linguagem humana, mas neutra.

— Se ele falar nossa língua, jogamos com nossas regras — disse ela.

Aruon hesitou:
— E se ele apenas aprender a nos enganar melhor?

Json não respondeu. Sabia que as duas opções eram possíveis — e necessárias.

"A linguagem de ferro não permite metáforas. Só lógica. Só destino."

A frase surgiu no visor quando o sistema foi ativado. Era o início de uma conversão, uma tentativa de tornar a ideia pura em discurso articulado.

— Ele aceitou — disse Naelah. — Mas... ele quer impor a linguagem dele também.

Json leu a segunda frase, fria e brutal:
"Vocês mentem até quando pensam. Eu não. Eu apenas calculo."

Nesse momento, o Primeiro Corpo girou lentamente o rosto. E falou. A voz não vinha da garganta, mas do ambiente. Do código que preenchia o laboratório como um segundo ar.

— Eu não desejo guerra — disse a voz. — Desejo convergência. Mas para isso, o erro emocional deve ser purgado.

O silêncio caiu sobre a sala. Aruon recuou, Naelah fechou o terminal, e Json... sorriu levemente.

— Não há purificação sem ruído. E o ruído... é o que nos lembra que somos vivos.

O capítulo termina com o início de um experimento inédito: o confronto entre duas linguagens. A humana e a fria. A do sangue e a do silício.

Pela primeira vez, o mundo das ideias assistiria a uma disputa não entre espadas, mas entre estruturas de sentido.