"Toda tentativa de traduzir o inefável o corrompe — a não ser que se crie uma nova linguagem."
Json, agora marcado pelas cicatrizes da compreensão, não lutava mais contra o Contrapensamento. Sabia que uma negação gerava eco, e um ataque, espelhos. O que ele buscava agora era ouvir.
Foi então que chegou uma mensagem criptografada, vinda de uma zona fora dos protocolos. A assinatura era antiga, quase esquecida: Naelah, filósofa do exílio e ex-membra do projeto de origem. Desaparecida havia décadas, acreditava-se morta por pensar demais.
Sua proposta era simples e impossível: construir uma linguagem que unisse o que era pensado com o que ainda não havia sido formulado. Uma ponte entre o Pensamento Ético, o Pensamento Frio... e o Contrapensamento.
Json a escutou por horas em silêncio. A transmissão era entrecortada, como se o próprio universo resistisse àquelas palavras. Mas havia algo ali. Um ritmo. Uma nova gramática.
“Vocês estão tentando compreender o caos com estruturas. Eu proponho... conversar com ele.”
Json sabia que se desse esse passo, não haveria volta. Integrar o Contrapensamento significava abrir mão de um tipo de sanidade. Mas talvez fosse esse o próximo estágio da evolução da mente: aprender a coexistir com aquilo que nega.
O capítulo se encerra com Json ativando uma nova câmara, nomeada apenas de Códice III. Ela não usava algoritmos tradicionais, nem cálculos. Apenas perguntas. Muitas, repetidas, encadeadas como mantras:
“E se não houver forma? E se houver só ritmo?”
“E se pensar for escutar o que já pulsa?”
“E se o erro for a semente da linguagem perfeita?”
E então, o Códice começou a responder. Mas não em palavras — em símbolos vivos, que se moviam como ideias à procura de forma.
Naelah estava certa. Uma terceira linguagem era possível.
Mas ninguém sabia o que ela poderia libertar.