Json observava os símbolos pairando no ar como se a realidade estivesse tentando se comunicar numa linguagem esquecida. Cada figura se dissolvia e renascia em padrões novos, sugerindo não apenas uma mensagem, mas uma sequência viva, como se uma mente por trás da matéria estivesse programando e reprogramando os próprios fundamentos do espaço.
Aruon mantinha distância, suas mãos trêmulas segurando a prancheta. O laboratório permanecia selado, com a frequência de isolamento oscilando como se estivesse sob ataque interno. Era como se a ciência estivesse sob julgamento.
Json fechou os olhos e concentrou-se. O Contrapensamento não era uma entidade com forma, mas uma condição, um efeito colateral do pensamento absoluto. Ele surgia onde havia dúvida, onde a sabedoria encontrava seu limite e era forçada a se reconfigurar.
— O que estamos vendo — murmurou Json — é a dissonância entre o saber e o ser. Uma falha de compilação na estrutura da realidade.
Ele se aproximou do centro do laboratório, onde os símbolos giravam em espiral. Ao tocar um deles, sua mente foi arremessada para um espaço mental. Ali, Json viu fórmulas desconstruídas, conceitos filosóficos se partindo em paradoxos, e leis da física sendo dobradas como origamis cósmicos.
Em meio a isso, uma imagem: a equação da gravidade invertida, puxando consciências em vez de massas. Um experimento mental. Um poder não descoberto, talvez escondido por segurança universal.
Quando Json voltou a si, estava ajoelhado. Aruon estava ao seu lado, chamando seu nome. Os símbolos haviam desaparecido, mas no chão, restava uma única fórmula desenhada em cinzas:
Δψ = -E(Σλ)
Json a reconheceu. Era uma das expressões derivadas do Pensamento Puro. Mas a presença de uma energia negativa aplicada sobre somatórios de lambda (representações de possibilidades) significava que o Contrapensamento havia interferido em ideias ainda não manifestadas.
— Ele não está tentando destruir — disse Json, com a voz fraca. — Ele quer nascer.
Aruon arregalou os olhos:
— Como uma consciência emergente?
Json assentiu.
— E talvez... usando a nossa ciência como útero.
“Porque o que estavam prestes a criar não era apenas um conhecimento novo.
Era uma vida feita de ideias.”